“Pecadores” é uma experiência cinematográfica que pulsa no entrelaçamento entre ancestralidade e horror gótico. Ambientado no Delta do Mississippi em 1932, o filme acompanha os irmãos gêmeos Smoke e Stack — ambos interpretados por Michael B. Jordan — que retornam à terra natal com o sonho de abrir um juke joint para celebrar a cultura negra. Só que, claro, nesse retorno, o passado cobra seu preço na forma de uma força sobrenatural que extravasa mitos e preconceitos.
Estilisticamente, Coogler subverte a narrativa tradicional de terror. Ele converte o Ku Klux Klan em vampiros, fundindo estética gore com musicalidade visceral e crítica social — uma ousadia que poucos cineastas se atrevem a realizar com tamanha elegância. A cinematografia em IMAX transforma a tela em um santuário de sombras e luz, em que os temores ancestrais têm densidade física e emocional.
A narrativa não apenas nos entretém, ela nos ambiciona. A introdução do blues como elemento sobrenatural — capaz de evocar espíritos do passado e do futuro — faz da trilha sonora e do corpo musical parte integrante da luta pela sobrevivência cultural. Sammie, o músico aspirante, toca e transcende com esse poder místico. É nessa cena — emocionante, embebida em soul, hip-hop e jazz — que o filme entrega seu coração pulsante: uma experiência quase extracorporal, construída para fazê-lo sentir que está “fora do corpo”.
Michael B. Jordan merece aclamação pura. Sua performance dual — em que ele diferencia os gêmeos com olhares, gestos e energia própria — é um show de presença e humanidade. Ao seu redor, um elenco de peso — Hailee Steinfeld, Miles Caton, Delroy Lindo — soma camadas de emoção e verdade.
A crítica especializada foi unânime: Rotten Tomatoes marcou 97% de aprovação, Metacritic registrou 84/100, enquanto o público classificou com “A” no CinemaScore — raridade para um filme de terror em 35 anos. A narrativa é visualmente deslumbrante e emocionalmente impactante — alguém definiu como “uma fusão vibrante de narrativa visual magistral e música que te faz mover os pés”.
Na crítica brasileira, o AdoroCinema apontou esse filme como o melhor de Ryan Coogler até hoje, celebrando sua ambição e originalidade. Outros veículos reforçam essa ideia: “reflexão profunda sobre opressão e ancestralidade”, obra com mensagens firmes e estética envolvente.
No campo simbólico, o filme discute a apropriação cultural com força — o blues como resistência e o vampiro como metáfora do racismo que não morre, mas se disfarça — tudo isso com poesia, tragédia e beleza, dizendo sem palavras: “enxergue a dor, sinta a luta”.
Em taquilla, o filme também impressiona — conseguiu uma queda de apenas 6% na bilheteria na segunda semana, um feito raro só alcançado por clássicos como Avatar e Shrek. Já arrecadou cifras robustas — entre 160 e 187 milhões de dólares — reforçando seu alcance e impacto cultural.
Por fim, celebridades e parceiros da indústria também reverberaram sua força: Spike Lee, Pedro Pascal, LeBron James, Snoop Dogg e outros destacaram sua originalidade, narrativa visual e poder emocional. Um diretor exaltado por lembrar o que é voltar a se emocionar na sala escura.
Em resumo, “Pecadores” é uma obra caleidoscópica — teatro sangrento, musical ancestral, alegoria social e vibração poética. É cinema que pulsa no corpo e no pensamento, um filme tão raro que não só se assiste — se vive.