Clássicos do Cinema: Rei Arthur (2004)

Rei Arthur, a adaptação definitiva da lenda arturiana

Existem personagens que o cinema simplesmente não consegue deixar em paz. Rei Arthur é um deles. Ao longo das décadas, a lenda do rei da Távola Redonda ganhou versões românticas, fantásticas, históricas, infantis e até bastante livres. Mas, entre todas elas, há uma que, na minha opinião, permanece como a melhor adaptação cinematográfica já realizada: Rei Arthur, lançado em 2004, dirigido por Antoine Fuqua.

E não é apenas porque o filme tem boas batalhas ou porque Clive Owen funciona perfeitamente como Arthur. O grande mérito está na maneira como o filme transforma uma lenda conhecida em uma história de homens, lealdade, coragem, liberdade e sacrifício.

O filme não tenta simplesmente reproduzir o Arthur medieval das histórias tradicionais. David Franzoni constrói uma interpretação muito particular, inspirada na possibilidade de uma origem histórica para a lenda, apresentando Arthur como um comandante associado ao mundo romano em uma Britânia ameaçada pelos saxões.

É justamente essa escolha que torna o roteiro tão interessante.

Um roteiro que humaniza a lenda

O roteiro de David Franzoni não trata Arthur como um personagem perfeito que nasceu destinado a ser rei. Ele é apresentado como um homem dividido entre o desejo de partir e a responsabilidade de permanecer.

Essa característica dá ao personagem uma dimensão humana que considero fundamental.

Arthur não é um herói porque possui poderes extraordinários. Ele não depende de magia para vencer. Sua força está na liderança, na capacidade de tomar decisões difíceis e, principalmente, na disposição de colocar a vida dos outros acima da própria.

A Távola Redonda também ganha uma dimensão diferente. Lancelot, Tristan, Galahad, Gawain, Bors e Dagonet não são apenas nomes conhecidos da tradição arturiana. São homens com personalidades distintas, conflitos próprios e relações de lealdade construídas ao longo da história.

É uma das grandes virtudes do filme.

Antoine Fuqua entende o tamanho da história

A direção de Antoine Fuqua é outro motivo pelo qual Rei Arthur permanece tão marcante.

Fuqua não transforma a produção em uma fantasia medieval convencional. Ele cria um épico de guerra com atmosfera sombria, brutal e realista, aproximando a narrativa de um drama histórico.

As batalhas possuem peso. Os personagens parecem vulneráveis. A paisagem transmite frio, perigo e incerteza.

Existe uma sensação permanente de que aquela civilização está desaparecendo e que os personagens estão vivendo os últimos momentos de uma determinada ordem.

Isso dá ao filme uma identidade própria.

Clive Owen é Arthur

Se existe um ator que parece ter nascido para interpretar aquela versão de Arthur, é Clive Owen.

Seu Arthur não precisa fazer discursos constantemente para demonstrar autoridade. Owen trabalha muito com presença, expressão e postura.

É um Arthur cansado, experiente e profundamente marcado pelos anos de guerra.

A interpretação também evita transformar o personagem em um herói exagerado. Arthur é poderoso porque é humano. Ele sente medo, dúvida, raiva e tristeza, mas continua avançando.

 

Ao seu lado, o elenco é excepcional.

Keira Knightley interpreta Guinevere com força e personalidade. Ioan Gruffudd dá a Lancelot uma personalidade própria. Mads Mikkelsen, como Tristan, rouba atenção sempre que aparece. Ray Winstone transforma Bors em um dos personagens mais carismáticos do grupo. Ray Stevenson entrega um Dagonet memorável.

E ainda temos Hugh Dancy como Galahad, Joel Edgerton como Gawain, Stephen Dillane como Merlin e Stellan Skarsgård como Cerdic.

É um elenco que funciona coletivamente.

A fotografia é simplesmente extraordinária

Outro elemento frequentemente subestimado é a fotografia de Slawomir Idziak.

O filme possui uma identidade visual imediatamente reconhecível.

A fotografia trabalha com tons frios, paisagens abertas, neblina, lama, florestas e campos de batalha, criando uma atmosfera que combina perfeitamente com a proposta histórica e dramática.

Nada parece excessivamente limpo ou artificial.

A própria paisagem parece participar da história.

A direção de fotografia de Idziak é oficialmente creditada na produção, ao lado do trabalho de produção de Dan Weil e dos figurinos de Penny Rose.

E há outro detalhe importante: o filme constrói uma escala realmente épica. A produção chegou a construir uma réplica de aproximadamente um quilômetro de uma seção da Muralha de Adriano na Irlanda, um dos grandes elementos físicos utilizados para criar aquele mundo.

O elenco transforma os Cavaleiros em uma irmandade

Talvez a maior diferença entre Rei Arthur e outras adaptações seja justamente a importância concedida aos cavaleiros.

Não estamos diante de personagens decorativos.

Cada um possui identidade.

Tristan é silencioso e observador. Bors é irreverente e explosivo. Dagonet transmite força e lealdade. Lancelot possui uma personalidade mais provocadora. Galahad representa outra dimensão do grupo.

E Arthur está no centro de todos eles.

Essa relação de amizade e lealdade faz com que os momentos dramáticos tenham consequência emocional.

Quando um deles sofre, não estamos apenas perdendo um personagem secundário. Estamos vendo uma parte daquela irmandade desaparecer.

O filme também sabe ser grandioso

E não podemos esquecer da música de Hans Zimmer.

A trilha sonora ajuda a transformar determinadas sequências em momentos verdadeiramente épicos. Ela amplia a sensação de escala e contribui para a identidade emocional do filme. Zimmer é oficialmente creditado como compositor da produção.

A combinação entre fotografia, direção, montagem, trilha sonora, cenografia e atuação cria algo que poucas produções conseguiram alcançar dentro do universo arturiano.

Uma adaptação que não precisa ser fiel para ser excelente

 

É justamente aqui que Rei Arthur pode dividir opiniões.

Quem procura uma reprodução fiel das lendas tradicionais provavelmente encontrará diferenças importantes.

Mas adaptação não significa necessariamente reprodução.

O filme utiliza elementos conhecidos da tradição arturiana e os reorganiza dentro de uma narrativa histórica própria. Arthur, Guinevere, Merlin, Lancelot e os cavaleiros continuam presentes, mas aparecem dentro de uma interpretação diferente.

E essa liberdade criativa é justamente o que permite ao filme possuir identidade.

Não é simplesmente mais uma versão da história do Rei Arthur.

É a versão de Rei Arthur segundo Antoine Fuqua.

Por que considero o melhor?

Porque Rei Arthur consegue fazer algo extremamente difícil: transformar uma lenda conhecida em uma história que parece nova.

O roteiro dá humanidade aos personagens.

A direção dá escala à narrativa.

Clive Owen dá força e humanidade a Arthur.

O elenco cria uma irmandade convincente.

A fotografia de Slawomir Idziak cria uma atmosfera visual extraordinária.

Hans Zimmer dá dimensão épica à história.

E tudo isso resulta em um filme que, mesmo mais de duas décadas depois, continua possuindo personalidade própria.

A crítica profissional recebeu o filme de maneira bastante dividida. No Rotten Tomatoes, por exemplo, a produção registra uma aprovação crítica bem inferior à recepção do público.

Mas cinema também é experiência pessoal.

E, para mim, Rei Arthur, de 2004, continua sendo a melhor adaptação cinematográfica da lenda arturiana.

Não porque seja a mais fiel.

Não porque seja a mais famosa.

Não porque seja a mais premiada.

Mas porque é aquela que melhor conseguiu transformar Arthur, Lancelot, Guinevere, Merlin e os Cavaleiros da Távola Redonda em personagens de carne e osso, vivendo uma história de guerra, lealdade, amor, sacrifício e honra.

É um filme que talvez tenha sido subestimado em seu lançamento, mas que envelheceu muito bem.

E, quando as espadas são erguidas, os cavalos avançam e Arthur decide permanecer para lutar por aquele povo, o filme deixa de ser apenas uma adaptação de uma velha lenda.

Ele se transforma em uma história sobre homens que escolheram permanecer quando seria muito mais fácil partir.

E é exatamente por isso que, para mim, Rei Arthur continua sendo o rei das adaptações arturianas.

Léo Vilhena