Assim que surgiram as primeiras notícias de que Guillermo Del Toro planejava adaptar o clássico Frankenstein, a perspectiva nasceu mais do que otimista, pensando na assinatura narrativa do cineasta e no coração da trama original, que combina o horror de uma criatura visualmente icônica a uma discussão existencial e melancólica – é a especialidade de Del Toro. O resultado, ainda que patine no equilíbrio desta mesma discussão, não deixa dúvidas de que o diretor mexicano é o artista certo para apresentar uma fantasia como esta.
Adaptado da obra de Mary Shelley, o filme de 2025 nos apresenta novamente ao ambicioso cientista Victor Frankenstein (Oscar Isaac) lidando com as consequências de sua extraordinária, mas perigosa, criação: o monstro, interpretado nesta versão por Jacob Elordi (Euphoria), nasce de um sinistro quebra-cabeça de partes humanas e, quando ganha consciência, entra em conflito com seu criador. Daí, vem o desenrolar do clássico questionamento sobre o que nos torna pessoas e sobre o desejo humano de controlar a vida, a morte e tudo o que acontece no meio do caminho.
Frankenstein de Del Toro tem criador e criaturas tomados pelas emoções
“Nunca pensei no que viria depois da criação”, nos diz Victor enquanto narra sua história. Penso que a frase sintetiza o ponto principal do viés escolhido por Del Toro para a adaptação. Ainda que retorne ao passado do médico para ilustrar brevemente de onde vem sua personalidade e ambições, a atenção aqui parece estar muito mais direcionada ao doloroso despertar da criatura – que acontece, em boa parte, longe dos olhos de seu criador.
Com uma estrutura dividida entre o protagonismo de Oscar Isaac e de Jacob Elordi, o filme traz uma jornada de (muito) sofrimento da criatura enquanto amadurece. É interessante como o monstro nasce, assim como um bebê, tendo Victor como sua única referência – “Victor”, aliás, é a primeira palavra que aprende e a única que conhece durante algum tempo – e a formação de sua consciência é difícil, tanto internamente, sem saber por que veio ao mundo, quanto externamente, exposto a uma sociedade que ou não o enxerga ou o vê como menos do que humano.
Enquanto a criatura se digladia com o próprio ser e com todos em volta, o criador vive um dilema moral também interessante: o monstro foi criado por uma vaidade intelectual que se bastava em provar a capacidade de gerar vida. O que fazer com ela depois são outros quinhentos. Ao perceber que seria impossível “inventar” uma pessoa e ter total controle sobre ela, Victor é consumido pelo peso da consequência – que vai do entendimento de que não poderia ser o mestre da criatura a uma espécie de ressentimento ao ver sua criação negar suas vontades.
Aqui, penso que o que ficou faltando é o equilíbrio: as nuances na personalidade de Victor até estão lá, mas é preciso uma certa boa vontade (ou, talvez, algum conhecimento da obra original) para vê-lo como algo mais do que um cientista maluco com complexo de Deus. Sem um mergulho mais forte em aspectos diferentes do personagem, incluindo o peso de ter uma mente que, para um lado ou para outro, era genial, sinto que ele se torna apenas uma pessoa chatinha, levemente intragável.
Neste ponto, vale ressaltar também a entrada de Mia Goth (MaXXXine) nessa história: além de interpretar a mãe de Victor, a atriz faz Elizabeth, por quem o personagem se encanta. Particularmente, me interessei por esta relação quando Victor diz que o sentimento por ela foi o que finalmente deu a ele alguma vontade de viver, mas parece que nada disso vai muito em frente. As aparições de Elizabeth são mais pontuais do que se esperaria pelo peso que ela tem tanto para o criador, quanto para a criatura e gostaria de vê-la mais sedimentada na trama..
Adoro Cinema